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POR QUE TANTOS DIAGNÓSTICOS HOJE EM DIA?

Atualizado: 30 de mar.

Talvez você já tenha se perguntado se estamos vivendo em uma realidade em que a medicina “perdeu a mão” — e passou a dar nome e diagnóstico para tudo aquilo que antes era considerado apenas “jeito de ser”, falta de esforço ou ausência de uma boa educação “raiz”.
É muito comum eu ler no meu canal comentários como:
“Antigamente não tinha nada disso de autismo, TDAH e afins"
“Hoje tudo tem nome para virar vitimismo”
“Na minha época isso passava depois de carpir um lote”
Pois é.
Mas o grande equívoco aqui não está apenas no capacitismo — embora ele esteja bem presente —, e sim na crença de que essas condições realmente não existiam antes. Ou, pior ainda, que eram resolvidas com ocupação constante, disciplina rígida e pouco espaço para pensar ou sentir.
A realidade é outra — e ela não é tão confortável assim.

Mesmo antes de termos nomes, critérios diagnósticos e avanços na neurociência, os problemas já existiam. E causavam prejuízos reais.
A diferença é que eles eram mascarados. Escondidos debaixo do cansaço extremo, do excesso de trabalho, da vergonha de expor dificuldades e, principalmente, dos rótulos sociais que substituíam qualquer tentativa de compreensão.

Já existiam pessoas com TDAH — mas eram chamadas de preguiçosas, desorganizadas, “avoadas”, mal-educadas ou sem limites. Pessoas que interrompiam a conversa alheia, falavam sem filtro, esqueciam compromissos… e eram vistas como desleixadas, irresponsáveis ou simplesmente como pessoas que não se esforçavam o suficiente.

Já existiam pessoas autistas — especialmente aquelas com maior autonomia —, mas eram rotuladas como difíceis, frias, dramáticas, “cheias de frescura”, antissociais ou excêntricas demais para conviver.

Não estou dizendo que todo mundo com essas características era, de fato, autista ou TDAH. Mas muitos eram — e nunca tiveram a chance de entender a si mesmos. Recebiam, no lugar de um diagnóstico, um julgamento. Porque, naquela época, a medicina simplesmente não tinha o nível de compreensão que temos hoje sobre o funcionamento do cérebro humano.

E aqui entra um ponto importante — e que costuma incomodar: o aumento de diagnósticos não significa necessariamente que surgiram mais casos. Significa que agora nós conseguimos enxergar melhor o que sempre esteve ali.
É como acender a luz em um quarto escuro: os móveis não apareceram naquele momento — eles só deixaram de estar escondidos.

Hoje temos mais acesso à informação, mais profissionais capacitados, critérios diagnósticos mais refinados e, principalmente, mais espaço para falar sobre saúde mental e neurodesenvolvimento sem que isso seja automaticamente associado à fraqueza ou falta de esforço.

Além disso, existe um fator que muita gente ignora: as demandas da vida moderna mudaram — e muito.

O mundo de hoje exige habilidades que antes não eram tão necessárias — organização constante, gestão de tempo, foco prolongado em tarefas pouco estimulantes, alta carga cognitiva e um volume de informação simplesmente absurdo. Tudo isso escancara dificuldades que, em outros contextos, poderiam passar despercebidas. Ou seja: não é só que estamos diagnosticando melhor. É que também estamos expondo mais as dificuldades.

Agora, vamos ser honestos: isso significa que não existe exagero ou diagnósticos equivocados?
Não. Existe, sim, um risco de banalização em alguns contextos. Existe conteúdo raso na internet, autodiagnósticos precipitados e profissionais despreparados.
Mas usar isso como argumento para invalidar todos os diagnósticos é tão lógico quanto dizer que, porque existem médicos ruins, a medicina inteira não presta.

É uma crítica simplista — e, convenhamos, bastante conveniente para quem nunca precisou lidar com essas dificuldades na própria pele.
No fim das contas, o que mudou não foi a existência das condições.
Foi o olhar.

Estamos, aos poucos, saindo de uma lógica de julgamento para uma lógica — ainda em construção — de compreensão. E isso não transforma ninguém em vítima. Transforma pessoas em conscientes. E entender a própria mente sempre foi muito mais poderoso do que passar a vida inteira acreditando que o problema é simplesmente “falta de esforço”.

 
 
 

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